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Imigração Brasil vira terra prometida de bolivianos, pela indústria da moda paulistana Alan Rodrigues e Marina Caruso – Bolívia Estação Bimodal, centro da cidade de Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. É nesse desordenado centro ferroviário que, diariamente, milhares de bolivianos alimentam o sonho de abandonar a miséria, a fome e o desemprego. No afã de deixar o país, tomam de assalto a locomotiva que costura a planície entre a região do Chaco e a Cordilheira dos Andes, rumo à terra prometida: o Brasil. Num movimento que reproduz o triste fluxo de imigrantes brasileiros rumo aos Estados Unidos. Para os bolivianos, a América é aqui e fala português. Nessa desesperada luta migratória, homens, mulheres e crianças chacoalham nos assentos duros e desconfortáveis do Trem da Morte, hoje uma espécie de expresso da esperança. A Esperança de muitos que acabarão por engordar as estatísticas dos chamados indocumentados, explorados pela próspera indústria da moda de São Paulo. Afinal, com a entrada dos produtos chineses no Brasil, ficou difícil produzir roupas tão baratas quanto as importadas. A mão-de-obra boliviana é, então, um excelente negócio para economizar. Enquanto um brasileiro com carteira assinada recebe cerca de R$ 3 por peça costurada, os indocumentados recebem R$ 0,30. O preço para o consumidor final é de R$ 30. Porto Quijarro, fronteira boliviana com Corumbá, em Mato Grosso – por onde só seu radiante mundo da moda. “Quem compra roupas no Brás, no Bom Retiro e no Pari, regiões
centrais da capital, não se dá conta, mas esse universo só
existe por causa da exploração
da mão-de-obra boliviana”, afirma o padre Roque Patussi, da Pastoral
do Migrante de São Paulo. “São jornadas de trabalho de 14 a
16 horas diárias, com pequenas pausas para almoço e jantar
e folgas aos domingos, quando eles deixam as oficinas, local onde também
moram”, diz a procuradora regional do trabalho Cristina Brasiliano.
O abuso é tanto que a Câmara Municipal de São Paulo instaurou em abril deste ano uma CPI para apurar
o caso. Como muitos desses bolivianos entram ilegalmente no País, nem
os próprios relatores da tal CPI do Trabalho Escravo conhecem as dimensões
da exploração. Para o chefe do Ministério de Migração da Bolívia em
Santa Cruz, Hugo Landivar, trabalham no Brasil cerca de 400 mil bolivianos,
sendo 200 mil só nas confecções da Grande São
Paulo. Já o Consulado da Bolívia afirma que na capital paulista
os números não passam de 32 mil, sendo 12 mil portadores do
Registro Nacional de Estrangeiros, 600 naturalizados brasileiros e o restante
ilegais. Pelo esquema de tráfico
de mão-de-obra radiografado por ISTOÉ em duas das principais
rotas de entrada dos bolivianos no País, os números de Landivar
não parecem superestimados. “Cobramos cerca de US$ 100 a US$ 300 para
levar os passageiros até um local menos visado pela Polícia
Federal”, contam motoristas de táxi brasileiros e bolivianos na fronteira.
Como a maioria dos imigrantes não tem como pagar, entra como turista,
e depois de três meses torna-se ilegal. negada. A estudante
Jenny Espinoza, 19 anos, foi uma delas. No final de junho, saiu da casa de seus
pais, em Santa Cruz, para embarcar com sua tia materna para São Paulo,
onde a parente lhe prometera um “estágio” numa confecção.
Mesmo com o não da imigração, a tia comprou-lhe um carimbo
falso. Jenny, sem saber disso, subiu no ônibus. Agentes da PF pediram
os passaportes. A estudante foi presa por porte de documento ilegal e sua
tia, que tem residência brasileira, embarcou para a capital paulista. Dezoito horas depois
de partir de Santa Cruz, os imigrantes desembarcam em Porto Quijarro, fronteira
boliviana com Corumbá, em Mato Grosso – por onde só de janeiro para cá,
segundo a Polícia Federal, entraram mais de dez mil bolivianos. Apavorados,
eles saltam pelas janelas carregando suas tralhas e correm rumo à fronteira.
O futuro é São Paulo com suas dezenas de milhares de confecções
e seu radiante mundo
da moda. “Quem compra roupas no Brás, no Bom Retiro e no Pari, regiões
centrais da capital, não se dá conta, mas esse universo só
existe por causa da exploração
da mão-de-obra boliviana”, afirma o padre Roque Patussi, da Pastoral
do Migrante de São Paulo. “São jornadas de trabalho de 14 a
16 horas diárias, com pequenas pausas para almoço e jantar
e folgas aos domingos, quando eles deixam as oficinas, local onde também
moram”, diz a procuradora regional do trabalho Cristina Brasiliano.
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ano uma CPI para apurar
o caso. Como muitos desses bolivianos entram ilegalmente no País, nem
os próprios relatores da tal CPI do Trabalho Escravo conhecem as dimensões
da exploração. Para o chefe do Ministério de Migração da Bolívia em Santa Cruz, Hugo Landivar, trabalham no Brasil cerca de 400 mil bolivianos, sendo 200 mil só nas confecções da Grande São Paulo. Já o Consulado da Bolívia afirma que na capital paulista os números não passam de 32 mil, sendo 12 mil portadores do Registro Nacional de Estrangeiros, 600 naturalizados brasileiros e o restante ilegais. Segundo a Polícia
Federal de Corumbá, além dos dez mil que entraram no País negada. A estudante Jenny Espinoza, 19 anos, foi uma delas. No final de junho, saiu da casa de seus
pais, em Santa Cruz, para embarcar com sua tia materna para São Paulo,
onde a parente lhe prometera um “estágio” numa confecção.
Mesmo com o não da imigração, a tia comprou-lhe um carimbo
falso. Jenny, sem saber disso, subiu no ônibus. Agentes da PF pediram
os passaportes. A estudante foi presa por porte de documento ilegal e sua
tia, que tem residência brasileira, embarcou para a capital paulista.
Embora boa parte das
ações possa ser enquadrada como tráfico de seres humanos,
para os aliciadores o serviço é natural. Prova disso está
na gravação de uma conversa feita por ISTOÉ com uma
agência de viagem da Bolívia. Com sedes em Santa Cruz de la
Sierra, La Paz e Cochabamba, a agência Lauretana opera como um grande
coiote. Quando não migram para o Brasil com esquemas montados por
agências de viagem ou coiotes, os bolivianos saem com a ajuda de parentes
que já se estabeleceram em São Paulo. Além de Jenny,
que foi enganada pela própria tia, muitos fiam-se no depoimento de
familiares que, apesar do trabalho forçado, encontraram nas confecções
de São Paulo condições de vida melhores do que na Bolívia.
A jovem Alexi Yanamo, 28 anos, de Santa Cruz de la Sierra, por exemplo, tem
tanta vontade de se juntar à irmã – que trabalha há
mais de um ano como costureira em São Paulo –, que começou
a estudar corte e costura. “Ela me disse que quem sabe costurar bem ganha
mais”, explica. Como a legislação do Brasil prevê que o estrangeiro cujos filhos nascem em território nacional têm direito à cidadania brasileira, muitas bolivianas migram para cá grávidas. “Tá cheio de barriguda que sai de San Matias, na Bolívia, e vem dar à luz aqui na maternidade em Cáceres (cidade ao norte de Mato Grosso, a 90 quilômetros da fronteira)”, conta um taxista brasileiro, que costuma atravessar as bolivianas, por rotas alternativas à da fiscalização. |